“Cunene vai deixar de ser o que foi há cinco anos”

O Presidente da República assegurou, esta segunda-feira (4), na povoação de Cafu, município de Ombadja, que a província do Cunene vai deixar de ser o que foi há cinco anos, referindo-se aos momentos difíceis por que passou, até aqui, provocados pelos efeitos da seca regular nessa região do país.

João Lourenço fez a afirmação depois de inaugurar o sistema de transferência de água a partir do rio Cunene, na secção de Cafu, para abastecer as localidades de Om-bala Yo Mungo, Namacunde e Ndombondola, zonas desta província muito fustigadas pela seca.

“Com toda esta água, não há razões para, nos próximos anos, as populações continuarem à espera de ajuda alimentar, uma vez que terão a possibilidade de produzir os seus próprios alimentos, que servirão não só para o auto-consumo, como, também, para colocar no mercado e, com eles, ganharem algum dinheiro para satisfazerem outros tipos de necessidades”, realçou.

O Presidente da República, que falava à imprensa no termo da inauguração da infra-estrutura, referiu que o projecto representa uma grande vitória para a população do Cunene, mas não encerra o programa gizado para combater os efeitos da seca na província.

“Este projecto é apenas o início de um amplo programa que vai beneficiar não só as populações vítimas da seca na província do Cunene como, também, no Namibe e na Huíla”, destacou o Chefe de Estado, para quem o significado deste momento representa a vitória sobre o sofrimento das populações do Cunene.

Disse haver, ainda na província do Cunene, outros projectos em curso, que se vão juntar ao sistema de transferência de água a partir do rio Cunene, para mudar a vida das populações locais nos próximos anos.

“Vai haver mais água, pois entendemos que, para haver mais desenvolvimento, precisamos de ter dois bens essenciais: energia e água”, frisou.

Num outro momento, quando falava para a população que foi ao local para testemunhar a inauguração do projecto, o Presidente da República, que se fez acompanhar da Primeira-Dama da República, Ana Dias Lourenço, de vários membros do executivo e altos quadros do seu Gabinete, apelou-os a aproveitarem este momento para se dedicarem, também, à Agricultura e não se limitarem à criação de gado.

Anunciou que o Ministério da Agricultura e Pescas e algumas Organizações Não-Governamentais vão ajudar neste processo: “Se antes cultivavam um pedacito de massango, com esta água, já podem cultivar um hectare, dois hectares ou maior quantidade”.

Incentivou a população a cultivar o milho, feijão, hortícolas e outros produtos para alimentação, sobretudo, das crianças que devem ser bem alimentadas. Para o incentivo da prática da Agricultura na zona, o Presidente ofereceu, a título simbólico, tractores, charruas, moto-cultivadoras e outros insumos às populações. “Daqui para frente, só será alegria e progresso”, desejou. 

Apelo para o bom uso

Na ocasião, o Presidente da República apelou à população a fazer um uso responsável do projecto, evitando actos que ponham em causa o bom funcionamento, para não voltarem a ficar sem água.

Lembrou que a vida nas aldeias vai depender, agora, do cuidado que a população vai dar ao canal. “Ninguém mata a fonte de vida, que tem que ser bem protegida e a responsabilidade da sua protecção é vossa. Esta obra não foi entregue ao Presidente, mas às populações do Cunene”, esclareceu.

Razão do projecto

O Presidente da República recordou que a iniciativa para dar início à construção do sistema de transferência de água a partir do rio Cunene nasceu durante a primeira visita que efectuou à província, em 2019, tendo, na ocasião, constatado o sofrimento que a população enfrentava para conseguir água.   

“Vimos jovens, até me-ninas, a descerem a uma grande profundidade da cacimba, com o risco de desmoronar, para subirem com um pouco de água no balde, muitas vezes com mais lama do que propriamente água”, lembrou, acrescentando ser por essa razão que se gizou o programa de combate aos efeitos da seca na parte Sul do país.

O Presidente disse que um projecto como o que acaba de ser inaugurado no Cunene vai nascer, também, nas províncias da Huíla e do Namibe. Após a inauguração do sistema de transferência de água a partir do rio Cunene, João Lourenço visitou toda a extensão do canal adutor do projecto. Em cada povoação que passava, era fortemente aplaudido pelos moradores, que o acenavam com o gesto de obrigado.

Bispo do Cunene

O bispo da Diocese de Ondjiva, Dom Pio Hipunyati, presente no evento, referiu que este projecto vai reduzir, significativamente, o sofrimento das populações afectadas pela seca no Cunene, na medida em que vai fornecer a água, de forma permanente, para o consumo humano e para o abeberamento do gado, bem como para a prática agrícola.

“Quer dizer que muitos miúdos já não abandonarão a escola como tem sido até aqui, por causa da transumância em busca de pasto e de água noutras regiões”, frisou.

Para o rei dos Kwanhamas, Jerónimo Haleinge, o Presidente João Lourenço resolveu um problema que datava do tempo colonial. “Pensamos que fica minimizado o problema da carência de água na província do Cunene”, aclarou.

Sistema de Transferência

O sistema de transferência de água a partir do rio Cunene para as localidades de Om-bala Yo Mungo, Namacunde e Ndombondola tem o coração na povoação de Cafu, comuna de Xangongo, município de Ombadja.

É das primeiras respostas concretas ao problema da seca na província do Cunene, desde a Independência de Angola. Até antes da sua existência, o problema da seca era combatido à base de furos de água. Chegaram a ser abertos, em toda a província, mais de 700 furos, que foram incapazes de atenuar o sofrimento da população, por, na sua maioria, serem negativos.

O sistema de transferência de água faz parte de um leque de três primeiros projectos estruturantes de combate aos efeitos da seca aprovados para a província do Cunene e arrancou em 2019. Tem como principais componentes a estação de bombagem que, numa primeira fase, vai captar e bombear dois metros cúbicos de água por segundo, ou seja, dois mil litros. Dispõe de uma tubagem pressurizada com uma extensão aproximada de dez quilómetros, um canal condutor geral de 47 quilómetros e, logo a seguir, no lote 1, uma bifurcação com dois canais, sendo o Leste e o Oeste.

O canal Leste, que vai levar a água a Namacunde, conta com uma extensão aproximada de 55 quilómetros. Já o Oeste, que segue em direcção à povoação de Ndombondola, possui uma extensão aproximada do primeiro. Para além dos canais, o sistema de transferência de água conta, igualmente, com 30 chimpacas (reservatórios de água) e 93 bebedouros para as pessoas e para o gado.

Cada uma das chimpacas mede 100 metros de comprimento, 50 de largura, cinco a seis de profundidade e uma capacidade de armazenamento de água a variar entre 25 mil metros cúbicos e 30 mil metros cúbicos.

Orçado em 136 milhões de dólares, o projecto vai beneficiar 235 mil pessoas, 250 mil cabeças de gado e reserva uma área aproximada de cinco mil hectares, para a prática da agricultura irrigada.

A agenda de trabalho de João Lourenço, no Cunene, reserva, para hoje, um acto de massas, em que se vai dirigir à população local.

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